quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Enfim, sós!


Qual foi a última vez que você pronunciou as duas palavrinhas do título? Saiba que centenas de jovens recém-casados as pronunciam todos os dias. Só no Brasil, segundo o IBGE, o número de uniões legais em 2008 chegou perto de um milhão! Um milhão de "Enfim, sós!", fora os que não entram na estatística, aqueles que pensam que casar "de papel passado" é coisa, com perdão do trocadilho, do passado.

A expressão de pura satisfação justifica-se pelo longo período dos preparativos nupciais, que envolvem desde arranjar o(a) noivo(a), encomendar os convites, bifê e mais uma centena de coisas "indispensáveis" que a indústria do casamento lhe empurra goela abaixo, até a cansativa, mas excitante, busca pelo apartamentinho dos sonhos, com alguns pesadelos embutidos - reforma, atrasos, gastos e mais gastos -, porque nem tudo é perfeito.

Existe até uma associação com o pomposo nome "Associação dos Profissionais, Serviços para Casamento e Eventos Sociais (Abrafesta)" que, diga-se de passagem, é o terror dos pais de noivos. Segundo a dita cuja, as cerimônias no Brasil movimentaram em 2010 cerca de R$ 10 bilhões. Acha muito? Pois nos States é vinte vezes mais!!! E o mercado é crescente. Pensando até em mudar de profissão...

Após a tão esperada festa que os noivinhos modernos curtem até o sol raiar, junto à galera animada por espumantes e outras biritas, nada melhor que um "Enfim, sós!", concordam?

Pois é, depois de mais de trinta anos, me vi pronunciando pela segunda vez esse mimo. Não, não casei de novo! Meus filhos casaram.

Até a geração das nossas mães, com raras exceções, era chegada a temida hora da tal "síndrome do ninho vazio", só habitado novamente com a chegada dos netinhos com suas fraldas e mamadeiras e noites insones... Tem gosto pra tudo, não é mesmo?

Parece que um novo modelo de casal está surgindo. Ainda jovens, que se curtem e que curtem a vida. Tem coisa melhor? Voltar a namorar, viajar de férias sem ter que deixar a despensa cheia, contratar babá extra, trazer a mãe para dar aquela espiada nas traquinagens das crianças ou no namoro dos aborrescentes.

Quando os netos chegarem, é claro que vamos curtir, mas será a vez dos nossos filhotes planejarem com cuidado e carinho os seus próximos trinta anos para, um dia, poderem olhar com amor para o seu parceiro e dizer novamente o "Enfim, sós!".

P.S. Resolvi escrever sobre o tema depois de ouvir, pela milésima vez, perguntas do tipo: "E aí, como é casar os filhos?"; "Estão muito sozinhos?"; "Estão sofrendo muito?".

Fontes:
www.ibge.gov.br
www.brasileconomico.com.br
http://mulher.terra.com.br

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Liberdade é isso


Pedalar em Fortaleza, e acredito que na maioria das capitais brasileiras, pode significar voltar para casa sem seus pertences, incluída a própria bike, ou nem mesmo voltar.

Felizmente não é assim em todos os lugares do mundo. Estava em Paris e resolvi encarar um passeio de bicicleta pela "Cidade Luz". A prefeitura disponibiliza, para moradores e turistas, bicicletas que podem ser alugadas (grátis na primeira meia hora; 1 euro na segunda) em vários pontos da cidade e devolvidas em outros tantos, de acordo com a sua conveniência. Você só precisa de um cartão de crédito.

Vesti o uniforme de ciclista em férias: bermuda, camiseta, tênis e boné e parti para a estação mais próxima do meu hotel. Caminhei somente uma quadra e me deparei com um monte de vélos (bicicletas) – daí o nome do projeto “Vélib”, ou seja, vélo + liberté - novinhas em folha me esperando. Tudo parecia simples. Após algumas tentativas na máquina, consegui destravar a “minha bike”. Agora é por minha própria conta e risco.

Risco, que risco? Logo entendi que o perigo de ser atropelada era inexistente. Pedalei pelo bairro, percorri as largas avenidas com ciclofaixas. Ônibus e carros guardavam uma distância segura. Basta manter-se próximo ao meio fio e obedecer aos sinais de trânsito. Estava me sentindo a própria ativista ambiental, dando a minha contribuição cidadã para melhorar a atmosfera do planeta.

Resolvi entrar nas ruazinhas secundárias para acessar o cais do Rio Sena. E agora? Como vai caber um carro e uma bicicleta numa via tão estreita e sem ciclofaixas? Nem precisa se preocupar! Em Paris as ciclofaixas são imaginárias, estão na consciência dos motoristas. Eu achava que estava “atrapalhando o trânsito”, como se diz aqui no Brasil, e fiquei um pouco nervosa, mas não teve nenhuma buzina ou xingamento dos motoristas que vinham atrás de mim.

Cruzei por vários ciclistas, caras de terno, meninas de saia, pessoas indo e voltando do trabalho ou passeio. Pensei comigo: liberdade é isso, é poder decidir a melhor forma de ir e vir, sem prejudicar ninguém. Espero um dia poder fazer o mesmo na minha bela Fortaleza. Ao final de uma hora, devolvi a bicicleta em outra estação, dei baixa no meu cartão, e fui visitar um museu ali pertinho.

Artigo de Celma Prata publicado no jornal Sobpressão No. 22, de março/abril de 2010, sob o título "Liberdade é poder decidir"

terça-feira, 4 de maio de 2010

Seis motivos - de um total de 30 - para não sair de Saint-Germain-des-Prés

Sempre que os amigos provocavam "Se viajam para o exterior todos os anos, por que vão sempre para a mesma cidade?", tentávamos explicar e haja blá, blá, blá... Até que desistimos, pois na verdade não tinha nada que convencesse ou justificasse a nossa "aparente" falta de criatividade. A discussão se agravava mais ainda quando eu confessava que, na maioria das vezes, nem saíamos do bairro.

Foi depois de morarmos uma pequena temporada em Paris, entre 1995-1996, no 13o. arrondissement (bairro), que elegemos o charmoso Saint-Germain-des-Prés (6o. arr.) para "habitarmos" durante os nossos pequenos breaks anuais. Tem sido assim nos últimos 15 anos, com raríssimas exceções. Agora mesmo, estamos na "Ville de Lumière".

Todo início de maio, em plena primavera, nos mandamos para cá. Na maioria das vezes, só meu marido e eu. Os filhos, agora adultos, ficam reféns da própria agenda, que às vezes coincide com a nossa. No ano passado, por exemplo, vieram "na comitiva" a recém-norinha e o futuro genrão. Já nos encontramos aqui várias vezes com amigos, como os queridos Zeneida e Rangel, mas cada um com a sua programação diurna, nos esbarramos somente na night. Por duas vezes, nossos primos Márcia e Miguel estiveram também conosco. Desta vez, é a despedida de solteira da minha filha.

Voltando a St-Germain, vamos aos seis primeiros motivos - de um total de trinta - que elenquei para ficarmos no bairro (e não sairmos). Confirmem a seguir por que repetimos Paris nas férias de maio que, diga-se de passagem, é a melhor época para curtir a "cidade luz"! Outro destino, só como segundas férias.

1) Os macarons da Ladurée da Rue Bonaparte (1.50 euro cada) Foto: Divulgação

2) O por do sol do Pont des Arts bebendo vinho (sem mostrar a garrafa, porque não pode!)

3) Alugar uma vélib e passear pelo bairro (grátis na 1a meia hora; 1 euro na 2a)

4) O café Le Départ Saint-Michel para drinques e refeições ligeiras, antes e depois da balada (não fecha!!!). Fica na fronteira com Quartier Latin, outra paixão! Quando estiver farto de foie gras, confit e magret (o que é difícil), peça aqui um filet de vitelo à milanesa com uma massa (13 euros). Uma delícia! E barato para os padrões europeus. Quanto a bebidas alcoólicas, é sempre muito caro: 1 taça de champagne: 9 euros!!! Mas tem jarrinha de tinto Bordeaux de 250 ml por 5.60 euros, mas uma delícia mesmo é o rosé da Provence bem geladinho (cerca de 15 euros a garrafa).

5) A promenade e o marché da Rue de Buci Foto: Divulgação

6) Os crepes da esquina do Boulevard Saint-Michel com o Boulevard St-Germain (também na fronteira com Quartier Latin). Jambon/fromage 3.40 euros; sucrée 1.50 euro.
Créditos fotos: Celma Prata
(Continua nos próximos posts)

segunda-feira, 3 de maio de 2010

"Aqui falamos português"



Estou afastada uns dias em viagem pelo "Velho Mundo" (é o novo!), o que não justifica minha ausência neste espaço, muito pelo contrário, tenho muito para contar. Vou compensar, portanto, neste e nos próximos posts sobre algumas passagens interessantes.

Ao voltarmos para o hotel em Lisboa (Portugal), perguntamos a um passageiro do ônibus 28 se já estávamos perto do shopping Vasco da Gama, nossa parada, ao que ele respondeu: "Não...". Como não? Devia estar bem próximo, comentamos eu e minha filha. O passageiro então continuou: "... estamos próximos do Centro Comercial Vasco da Gama. Aqui falamos português!".

Tudo bem que procuremos preservar as nossas identidades, mas bom senso nunca é demais. Se os nossos nativos tivessem tido, em 1500, a atitude do orgulhoso passageiro, estaríamos todos no Brasil falando tupi-guarani até hoje. Pois, pois...

domingo, 25 de abril de 2010

Fortaleza é dez!!!


Com tanta lista de "As melhores" disso e daquilo, vamos às 10 melhores coisas para se fazer em Fortaleza:

  1. O pastel com caldo de cana da Leão do Sul da Praça do Ferreira;
  2. A caminhada descalça junto ao mar da Praia do Futuro, com a maré baixa;
  3. A panelada com uma "cerva" gelada no mercado São Sebastião;
  4. O caranguejo toc-toc da barraca Itapariká;
  5. O pôr do sol da Ponte Metálica, na Praia de Iracema;
  6. O jardim da casa de José de Alencar;
  7. A massa caseira com os tradicionais molhos italianos do Alfio de Santis;
  8. O peixe fresco frito das barracas da Praia do Futuro;
  9. O figado acebolado do Badudé;
  10. O chorinho do bar do Arlindo, aos sábados.


Foto: Divulgação

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Cerâmicas, ponte e "spirit"

Sempre que o assunto é cachaça e sítio, lembro dos meus queridos amigos Consuelo e Peter Harper, ele, o inglês mais brasileiro que eu conheço.

Peter desenvolve a bebida (“spirit”) em seu sítio, de forma não comercial, um paraíso no interior de São Paulo. Consuelo cria belas peças em cerâmica. Pois é, meus amigos “cachaceiros” formam uma dupla incomum. São os nossos inspiradores. Ele, na cachaça, ela, na decoração da casa. Vou explicar melhor.

Tudo começou em julho de 2002, quando fui passar meu niver em seu sítio. Não! Tudo começou mesmo há 15 anos. Mas o que marcou foi aquele final de semana em minha homenagem, no frio da montanha, combatido com muito vinho tinto, lareira, comidinhas fumegantes da Consuelo e muito “parabéns!”.

Quando chegou a minha vez de “decorar” (força de expressão, viu?) a minha casa da fazenda, aqui pertinho de Fortaleza, a imagem que me vinha era sempre do sítio dos Harper. Plagiei só TU-DO! Mas com o consentimento de ambos, é claro! Para mim, era como estar homenageando-os e retribuindo pela acolhida carinhosa.

Em seguida, meu parceiro de trinta e poucos anos (de união, gente!), ao desenvolver sua própria cachaça, também para consumo próprio e dos amigos, seguiu os passos meio britânicos-meio brasileiros dos nossos amigos.

Para arrematar com "chave de ouro" (ops!), ou melhor, com "cachaça do sítio" e "cedro do líbano", a primeira pedra dessa espirituosa ponte foi colocada pela minha amiga-irmã Ana, que ligou para sempre Libanus e Jambeiro. Chears!

sábado, 3 de abril de 2010

A utopia da sociedade perfeita




O comentário de "deltafrut" ao meu último post "Pela janela do carro" (sobre Brasília): "Uma das coisas que mudou muito foi a ideia de cidade planejada, perfeita, tranquila...", me lembrou um filme que assisti e que me fez refletir sobre o desejo humano de criar uma sociedade perfeita, sem sofrimento, onde todos são felizes.

O tema sempre exerceu grande fascínio sobre a humanidade. Na Grécia antiga, o filósofo Platão imaginou a sociedade ideal na obra “A República” (entre 380 e 370 a.C.); Séculos e séculos depois, a ilha imaginária do inglês Thomas More fez de sua “Utopia” (1516) uma obra atemporal. E, mais recentemente, em 1931, o também inglês Aldous Huxley criou a sua versão de sociedade extremamente organizada nas páginas de “Admirável Mundo Novo”.

O filme “A Vila” (2004), do diretor indiano "norte-americanizado" M. Night Shyamalan (o mesmo de “O Sexto Sentido” e “Sinais”), tem a sua versão de "sociedade perfeita".

Não podendo mais suportar a violência urbana e outros males sociais da modernidade, um grupo de pessoas, liderado por um professor e pesquisador (Sr. Walker), resolve se isolar para sempre em uma pequena comunidade (“vila”), muito simples e primitiva, onde sentimentos como o amor e a solidariedade e valores como pureza e inocência são a mola propulsora de tudo.

Como na ilha imaginária de More, o vilarejo perfeito de Shyamalan elege os mais velhos (“os anciãos”) − e por isso mesmo os mais sábios −, para decidir o que é melhor para todos. Com o objetivo de alcançar o bem comum e a felicidade coletiva, os anciãos não contavam, contudo, com a complexidade da natureza humana, com o instinto e outros sentimentos inerentes ao indivíduo. A segunda geração da pequena comunidade de 60 pessoas, por não terem vivenciado as experiências traumáticas de seus pais, começam a questionar aquele total isolamento, imposto sob o manto da fantasia e do medo, o que considero eticamente questionável. Em outras palavras: apesar de a comunidade propor pureza e inocência, seus habitantes são humanos e imperfeitos. O resultado não poderia ser outro: a violência acaba aparecendo.

A maldade é inerente ao ser humano e o sofrimento faz parte da vida. Isso, no entanto, não significa que tenhamos que ser maus ou sofredores crônicos. Podemos usar da racionalidade. No filme, um dos “anciãos” conclui: “perdi lá fora um familiar e aqui já perdi vários. Aprendi que o sofrimento faz parte da vida”.

No mais, o que move o filme é o amor entre o forte e questionador Lucius (Joaquin Phoenix) e a delicada e corajosa cega Ivy (Bryce Dallas Howard), que mesmo conhecendo o segredo dos anciãos, decide-se por manter as tradições daquela pequena comunidade. Até quando? Ninguém sabe. Igual "sorte" não teve o “selvagem” John, de “Admirável Mundo Novo”, que acaba se enforcando, para se livrar desse mundo "civilizado" que ele tanto almejava conhecer (olha a alegoria da caverna de Platão!).

Para quem não viu o filme, vale a pena passar na locadora. Aproveite o feriado de Páscoa!